As práticas agrícolas modernas, particularmente a lavoura profunda, perturbam a capacidade natural do solo para absorver e reter água, aumentando a vulnerabilidade tanto às inundações como às secas. Um novo estudo publicado na Science em 19 de março revela que a aragem pesada danifica os caminhos microscópicos que permitem que a água se infiltre eficazmente no solo. Esta degradação não é apenas ineficiente para o crescimento das culturas, mas reduz ativamente a resiliência da terra a eventos climáticos extremos.
Como a pesquisa foi conduzida
Pesquisadores liderados pelo geofísico Qibin Shi, da Academia Chinesa de Ciências, usaram um novo método para monitorar o movimento da água no subsolo. Eles implantaram cabos de fibra óptica – normalmente usados para internet de alta velocidade – como sensores sísmicos altamente sensíveis. Esses cabos podem detectar vibrações até mesmo sutis causadas pelo fluxo de água no solo.
O experimento ocorreu na fazenda de testes agrícolas da Universidade Harper Adams, na Inglaterra. Os pesquisadores prepararam 27 parcelas de terra usando três profundidades de preparo diferentes: plantio direto, plantio raso (10 cm) e plantio profundo (25 cm). Cada profundidade também foi variada com base no peso do maquinário utilizado, controlando a compactação do solo.
Principais conclusões: Movimento da água prejudicado pela aragem
Durante três dias em março de 2023, a equipe acompanhou como a água da chuva interagia com cada parcela. Os resultados foram claros: uma aragem mais profunda e uma maior compactação levaram a um aumento da acumulação de água na superfície, em vez de uma infiltração saudável. Esta água superficial evaporou rapidamente à luz do sol, agravando as condições de seca. Por outro lado, o solo menos cultivado permitiu que a água se distribuísse de maneira mais uniforme no subsolo.
A ciência por trás disso: ação capilar perturbada
O estudo explica que a água se move através do solo poroso por ação capilar, não pela gravidade. Os pequenos espaços entre as partículas do solo agem como capilares – as mesmas forças que permitem que a água suba dentro de um estreito tubo de vidro. Este movimento não se trata de a água cair no solo, mas de ser puxada pela adesão ao solo e pela coesão entre as moléculas de água.
Quando estes caminhos são interrompidos pela aragem ou compactados por maquinaria pesada, as forças capilares tornam-se mais fortes, dificultando o fluxo de água. O modelo confirmou que as redes de solo danificadas retêm a água perto da superfície, tornando-a mais suscetível à evaporação e ao escoamento.
«Perturbar a estrutura natural do solo não só torna a agricultura mais difícil – como também torna a terra menos estável num clima em mudança», observa Qibin Shi.
Esta investigação sublinha a necessidade de repensar as práticas convencionais de mobilização do solo em favor de métodos que preservem a estrutura do solo e melhorem a retenção de água. As implicações a longo prazo da lavoura profunda contínua são claras: maior risco de inundações e secas, e potencialmente redução da produtividade agrícola.
