Chimpanzés demonstram “pensar sobre o pensamento” na tomada de decisão baseada em evidências

17

Uma nova investigação revela que os chimpanzés exibem uma capacidade cognitiva notável: eles “pensam sobre o pensamento”, o que lhes permite pesar cuidadosamente as evidências e ajustar os seus planos em conformidade. Esta capacidade, conhecida como metacognição, reflete os processos de tomada de decisão que os humanos utilizam para avaliar informações e adaptar estratégias quando as coisas não correm como planeado.

Revisão de Crenças Baseada em Evidências em Chimpanzés

O estudo, publicado recentemente, descobriu que os chimpanzés ( Pan troglodytes ) não reagem simplesmente às evidências; eles avaliam isso conscientemente. Quando confrontados com uma tarefa que envolvia encontrar uma guloseima saborosa escondida numa de duas caixas, os chimpanzés examinaram meticulosamente diferentes evidências antes de fazerem uma escolha. Crucialmente, eles revisaram as suas decisões quando confrontados com informações novas e contraditórias.

“Quando revisam as suas crenças, na verdade representam explicitamente as evidências que possuem e pesam diferentes tipos de evidências”, explicou Jan Engelmann, psicólogo comparativo da Universidade da Califórnia, Berkeley, e co-autor do estudo.

Como a pesquisa foi conduzida

Os cientistas sabem há muito tempo que os primatas podem avaliar evidências, por exemplo, rastreando rastros de migalhas para encontrar comida. No entanto, esta investigação foi mais aprofundada, investigando se os chimpanzés poderiam realizar uma tarefa metacognitiva fundamental: mudar as suas crenças em resposta a novas evidências. A equipe de Engelmann desenvolveu vários testes comportamentais, todos centrados em recompensas alimentares em duas caixas.

Aqui está uma análise dos principais experimentos:

  • Testes iniciais (1 e 2): Os chimpanzés foram treinados para selecionar uma caixa esperando uma recompensa e, em seguida, apresentaram evidências conflitantes sobre qual caixa continha a comida. Eles mudaram consistentemente suas escolhas com base na força das novas evidências. Evidências fortes, como ver comida através de uma janela na caixa, causaram mudanças mais frequentes na escolha do que pistas mais fracas, como sacudir a caixa.
  • Terceiro Teste: Priorizando Evidências Fracas: Para entender por que os chimpanzés revisaram suas crenças, a equipe introduziu uma terceira caixa, removendo a caixa com evidências fortes. Quando confrontados com uma escolha binária entre evidência fraca e nenhuma evidência, os macacos escolheram consistentemente a caixa com a indicação fraca, demonstrando que consideraram ambas as opções.
  • Combinando Evidências (Teste 4): Os pesquisadores apresentaram evidências fracas duas vezes, seja a mesma pista (chacoalhar a caixa) ou uma nova (deixar comida cair na caixa). Os chimpanzés eram mais propensos a mudar de escolha quando ouviam duas evidências diferentes, mostrando que integravam várias pistas.
  • Respondendo a evidências contraditórias (Teste 5): Os pesquisadores apresentaram evidências que contradiziam as pistas iniciais, como revelar uma pedra dentro de uma caixa que poderia ter causado o som de chocalho. Os chimpanzés responderam consistentemente a esta evidência contraditória, mudando a sua escolha, demonstrando a sua capacidade de ligar informações originais e novas.

Uma “barra alta” de racionalidade

Cathal O’Madagain, cientista cognitivo da Universidade Politécnica de Mohammad VI, em Marrocos, enfatizou a importância do Teste 5. “O estudo cinco mostra um tipo de racionalidade que os estudos um e dois não mostram”, afirmou. Ele sugeriu que a investigação, juntamente com estudos anteriores sobre a racionalidade dos chimpanzés, demonstra que os chimpanzés ultrapassaram uma “barra elevada”, fazendo escolhas consistentemente com base em evidências e adaptando-se às novas circunstâncias.

Implicações mais amplas

O’Madagain acredita que a compreensão das mentes de outros animais não é limitada pelas suas deficiências inerentes, mas sim pela nossa própria capacidade de conceber métodos de teste apropriados. “A maior restrição à nossa compreensão da inteligência de outros animais é a nossa capacidade de encontrar formas adequadas de verificá-la”, observou ele.

Engelmann e a sua equipa planeiam agora alargar as suas experiências a outros primatas não humanos para ver se também conseguem passar neste teste de racionalidade, aprofundando a nossa compreensão das capacidades cognitivas para além dos humanos.

Esta investigação sublinha a notável complexidade cognitiva dos chimpanzés e fornece informações valiosas sobre a evolução da metacognição, revelando que estes animais possuem uma capacidade de tomada de decisões sofisticada e baseada em evidências.